Testamos o Rádio Vintage J-108 — E Foi Uma Mistura de Raiva e Curiosidade 😡📻


Rádio Vintage J-108 Abrimos o “rádio retrô” que promete tudo (Bluetooth, USB, SW) e descobrimos por que ele entrega quase nada. Uma autópsia da decepção.

Hoje, na bancada do “desmontei”, temos um gadget que é a definição perfeita de “isca digital”. Sabe aquele produto que você vê num anúncio e pensa: “Nossa, que legal! Junta o melhor dos dois mundos!”? É exatamente o caso do Rádio Portátil Vintage J-108.

A promessa é sedutora: um visual que remete aos rádios de válvula dos anos 50 ou 60, mas com um recheio tecnológico do século XXI. A caixa e o marketing prometem: Rádio AM/FM/SW (ondas curtas!), conectividade Bluetooth, entradas para USB, cartão SD e pen drive, uma lanterna de LED (porque, por que não?) e, para fechar o pacote, uma bateria interna recarregável, com a opção de usar pilhas grandes (Tipo D) para aumentar a autonomia.

Bonito por fora, o J-108 chama atenção. Ele tem aquele charme analógico, com um dial de sintonia grande e botões que parecem robustos. É o tipo de objeto que ficaria bem numa prateleira, servindo como peça de decoração.

Mas nós não estamos aqui para decorar. Estamos aqui para testar. E, mais importante, para desmontar.

A experiência… digamos que foi mais raiva do que diversão. 😤

Durante o teste inicial (como se pode ver nas imagens abaixo), o rádio apresentou vários problemas de funcionamento. A sintonia era um pesadelo, o Bluetooth tinha um áudio que parecia sair de um telefone de lata e a qualidade geral de construção… bem, ela gritava “custo baixo” em todos os cantos.

Apesar de termos conseguido entender um pouco mais sobre o produto na fase de testes, o resultado final não compensou o esforço. Mas a nossa curiosidade não morre na superfície. A verdadeira pergunta do “desmontei” é: por que ele é tão ruim? O que se esconde dentro dessa carcaça de plástico que imita madeira?

Prepare o seu café (e a sua paciência), porque vamos dissecar o J-108 e descobrir se a engenharia por trás dele é tão “vintage” quanto o seu visual.

💡 Curiosidade extra: o J-108 é vendido como um rádio “vintage moderno”, ideal para quem gosta de estilo clássico, mas quer ouvir músicas via Bluetooth. Infelizmente, e como vamos provar hoje, nem sempre o desempenho acompanha a aparência. Esta é a história de um equipamento que é 90% estilo e 10%… bem, vamos descobrir.


Primeiras Impressões (Onde a Curiosidade Vira Raiva)

Tudo começa com a caixa. Ela é colorida, cheia de features listadas e fotos atraentes do produto. Ao abrir, encontramos o rádio envolto num plástico-bolha fino e um cabo de energia (o famoso “rabicho” Tipo 8) para recarregar a bateria interna.

Rádio Vintage J-108

Ao pegar o J-108 pela primeira vez, a primeira coisa que se nota é o peso. Ou melhor, a falta dele. Para um rádio que se propõe a ser “vintage” e que tem espaço para pilhas grandes (que são pesadas), o aparelho em si é leve como uma pluma. Isso nunca é um bom sinal. O peso em eletrônicos de áudio, especialmente os “vintage”, costuma estar associado a bons ímãs de alto-falante, transformadores robustos e construção sólida. A leveza aqui sugere plástico oco e componentes minúsculos.

O acabamento, que nas fotos parece madeira ou um metal escovado, é apenas plástico. Um plástico pintado com uma textura que imita madeira, e que parece riscar só de olhar. O “cromado” dos botões e do contorno do dial é aquele plástico vagabundo que, com certeza, vai descascar em poucos meses de uso.

Os botões de função (Play/Pause, Avançar, Voltar) têm um click oco e tátil muito desagradável. O seletor de banda (AM/FM/SW/MP3) é duro e parece que vai quebrar a cada troca.

Mas a maior decepção inicial está no dial de sintonia. Ele é grande, bonito… e completamente solto. Girá-lo não passa nenhuma sensação de precisão. É um plástico leve conectado a um potenciômetro que parece estar flutuando lá dentro. A sensação tátil é zero.

Rádio Vintage J-108 desmontei

Antes mesmo de ligar, a impressão é de um brinquedo. Um brinquedo caro que tenta se passar por um equipamento sério. A “raiva” mencionada no título começa a se justificar aqui. É a raiva da publicidade enganosa, de um produto que investiu todo o seu orçamento no design e esqueceu do resto.


Parte 2: O Teste de Funcionalidade (A Decepção Sonora)

Colocamos o rádio na bancada e ligamos. Um “blip” agudo e uma voz em inglês com sotaque forte anunciam: “Bluetooth mode”. Ok, vamos testar.

Bluetooth e MP3 (USB/SD): O pareamento foi rápido, o celular encontrou o “J-108” sem problemas. Demos play numa música. O resultado? Atroz. O som é anasalado, estridente e sem absolutamente nenhum grave. O alto-falante, que ocupa um espaço generoso na frente do rádio, parece ser do tamanho de uma moeda. Aumentar o volume acima de 40% resulta em distorção pura. É um som que cansa os ouvidos em menos de um minuto.

Testamos a entrada USB com um pen drive. Ele leu os arquivos MP3, mas a navegação é primitiva: apenas “próxima” e “anterior”. Não há display, então você está navegando às cegas por pastas e arquivos. A qualidade sonora é idêntica à do Bluetooth.

Lanterna de LED: Sim, ele tem uma lanterna. Na lateral. É um único LED branco, de baixa potência. Ilumina o suficiente para você encontrar o buraco da fechadura no escuro, mas não muito mais que isso. Uma função adicionada claramente para engrossar a lista de features na caixa.

Rádio AM/FM/SW: Aqui é onde um “rádio vintage” deveria brilhar, certo? Errado.

  • FM: Com a antena telescópica esticada, conseguimos sintonizar algumas estações locais fortes. No entanto, o dial é terrivelmente impreciso. Uma estação que deveria estar em 99.7 MHz aparece marcada no dial perto do 101 MHz. A seletividade é péssima; estações próximas “vazam” umas sobre as outras.
  • AM: Ruído. Muito ruído. Conseguimos pegar uma ou duas estações locais à noite, mas com um zumbido constante de interferência. Inútil durante o dia.
  • SW (Ondas Curtas): Esta foi a maior piada. Passamos o dial pelas várias bandas de SW (ele tem SW1 e SW2) e o que ouvimos foi… nada. Apenas chiado. Mesmo em horários propícios para a propagação de ondas curtas, o J-108 se mostrou completamente surdo.

Os problemas de funcionamento são claros. O desempenho é sofrível em todas as funções. A curiosidade inicial se transformou em frustração. A única coisa que resta é abrir este equipamento e ver qual é o nível da tragédia lá dentro.


Parte 3: A Desmontagem (A Verdadeira Engenharia da Raiva)

Hora de pegar as chaves de fenda.

Para abrir o J-108, precisamos remover quatro parafusos na parte traseira. Dois deles estavam visíveis, e os outros dois… surpresa! Escondidos dentro do compartimento de pilhas. Uma tática comum para dificultar a abertura por usuários curiosos.

Ao remover a tampa traseira, somos recebidos pelo caos. O interior do J-108 é um exemplo clássico de “fio-fu”: um emaranhado de fios finos e coloridos conectando tudo de forma precária. Não há organização, não há gerenciamento de cabos. É tudo soldado diretamente onde calha.

O que mais choca é o espaço vazio. Cerca de 60% do volume interno do rádio é ar. A carcaça foi projetada para parecer grande e robusta, mas os componentes reais poderiam caber numa caixinha de som Bluetooth de 10 reais.

A Placa Principal (PCB): No centro dessa bagunça, encontramos uma única e minúscula placa de circuito impresso (PCB). E aqui, a “raiva” atinge níveis técnicos.

A qualidade da solda é assustadora. Vemos múltiplos pontos de “solda fria” (juntas opacas e quebradiças), excesso de fluxo de solda por toda parte e alguns componentes que parecem ter sido soldados à mão por alguém com pressa.

O “cérebro” de toda a operação é um único chip “System on a Chip” (SoC) de um fabricante genérico chinês (provavelmente um modelo da série JieLi ou similar). Este único chip é responsável por tudo: decodificação de MP3, recepção Bluetooth, processamento de áudio e até mesmo a lógica de sintonia do rádio.

O Sintonizador de Rádio: E o rádio AM/FM/SW? Não espere um sintonizador analógico robusto ou um chip DSP dedicado (como os da Silicon Labs). A função de rádio é quase um afterthought desse SoC barato. Todo o “circuito” de sintonia é composto por esse chip e um punhado de componentes passivos (capacitores e resistores minúsculos).

Isso explica a péssima recepção. Não há filtragem adequada, não há amplificação de sinal decente. As bandas de Ondas Curtas (SW) são puramente nominais. Elas estão ali no seletor e no chip, mas sem os componentes de RF (Rádio Frequência) adequados para fazê-las funcionar, elas são apenas decoração.


Parte 4: Análise dos Componentes (Onde a Economia Grita Mais Alto)

Vamos analisar os periféricos que estão conectados a essa placa mãe medíocre.

1. O Alto-Falante (A Fonte do Som de Lata) Ao remover a grade frontal, encontramos o culpado pelo som horrível. É um único alto-falante de cerca de 3 polegadas, sem marca e com um ímã do tamanho de uma moeda de 10 centavos. A potência declarada na caixa é de “5W”, mas o ímã e a bobina mal devem suportar 1W RMS.

O cone é de papel fino e a suspensão é rígida. Não há como essa unidade reproduzir qualquer tipo de baixa frequência. A “caixa acústica” é o próprio corpo oco do rádio, sem nenhum tipo de tratamento ou duto. É uma receita para o desastre acústico, e o J-108 a segue à risca.

2. A Bateria Interna (O Risco de Incêndio) O rádio vem com uma “bateria recarregável”. Ao investigar, encontramos uma única célula de Li-ion, modelo 18650, presa com fita dupla-face no fundo da carcaça.

Aqui as coisas ficam perigosas. A bateria não tem marca visível. A capacidade anunciada é geralmente de “1200mAh” ou mais, mas estas são quase sempre células recicladas de notebooks antigos ou rejeitadas de fábrica, com capacidade real muito inferior (na casa dos 400-600mAh).

Pior: não encontramos um circuito de proteção (BMS – Battery Management System) decente. Os fios estão soldados diretamente nos polos da bateria e vão para a placa principal. O circuito de carga na placa é rudimentar. Isso significa que não há proteção adequada contra sobrecarga, descarga profunda ou curto-circuito. É um risco de incêndio esperando para acontecer. A opção de usar pilhas Tipo D é, ironicamente, a forma mais segura de alimentar este aparelho.

3. As Antenas (O Motivo da Surdez) O J-108 tem duas antenas.

  • Antena Telescópica (FM/SW): É uma antena fina e frágil. O problema está na conexão. Um único fio, finíssimo, é soldado da base da antena até um ponto na PCB. A solda estava malfeita e parecia prestes a quebrar. Uma conexão ruim aqui mata qualquer chance de boa recepção.
  • Antena de AM: Para o AM, os rádios usam uma antena de ferrite (um bastão de ferrite com fio de cobre enrolado). No J-108, encontramos um. Ele é minúsculo, com cerca de 5 cm de comprimento, e está solto dentro do gabinete, preso apenas pelos fios que o ligam à placa. Uma antena de ferrite precisa ser posicionada corretamente e ser de um tamanho razoável para ter sensibilidade. Esta é puramente simbólica.

4. O Dial “Analógico” E o grande dial de sintonia? Como ele funciona? Ao desmontar o painel frontal, descobrimos que ele não está ligado a um capacitor variável clássico (como nos rádios antigos). Ele está ligado a um simples potenciômetro (um resistor variável) de baixa qualidade.

Quando você gira o dial, você está apenas variando a tensão que vai para o pino de “sintonia” do SoC. O chip interpreta essa voltagem e tenta sintonizar a frequência. Isso explica a imprecisão total. Qualquer poeira no potenciômetro ou variação de temperatura muda a resistência, fazendo o rádio “perder” a estação sozinho. É a pior implementação possível de um sintonizador “analógico-digital”.


Parte 5: O Veredito Técnico e a Conclusão

O Rádio Vintage J-108 não é um rádio. É um brinquedo. É um case de plástico oco projetado para parecer algo que não é, recheado com os componentes mais baratos e mal implementados possíveis.

A “mistura de raiva e curiosidade” se resolveu. A curiosidade foi saciada: descobrimos que não há nada de “vintage” na sua engenharia, apenas um SoC de R$ 5,00 fazendo um trabalho porco. A raiva se consolidou: este produto é um desserviço ao consumidor. Ele é mal construído, tem um desempenho péssimo e é potencialmente perigoso (graças à bateria e ao circuito de carga).

Por que ele é tão ruim?

  1. Foco Total na Aparência: Todo o orçamento foi gasto no molde de plástico para que ele parecesse um rádio antigo.
  2. Economia Extrema: O uso de um único SoC “tudo-em-um” de baixa qualidade mata o desempenho do rádio, do áudio e do Bluetooth.
  3. Componentes de Péssima Qualidade: O alto-falante é subdimensionado, a bateria é reciclada e as antenas são mal implementadas.
  4. Montagem Precária: Soldas frias, “fio-fu” e falta de controle de qualidade garantem que muitas unidades provavelmente falharão rapidamente (ou já saem da caixa com defeito).

Em resumo: matamos a curiosidade, abrimos o aparelho até o último parafuso, e confirmamos que não valeu a pena. A raiva que passamos no teste inicial foi apenas a ponta do iceberg. A verdadeira fonte da raiva está na engenharia preguiçosa e enganosa deste produto.

Se estás a pensar em comprar um desses para decorar, talvez sirva. Mas se você espera ouvir qualquer coisa nele – seja música, notícias ou chiado de ondas curtas – fuja. Vale muito mais a pena comprar uma caixinha de som Bluetooth simples de marca conhecida ou, se você realmente gosta de rádio, procurar um modelo dedicado (mesmo que digital) de um fabricante que saiba o que está fazendo.

Não invista o teu dinheiro nisto.


📺 Assiste ao teste completo e à desmontagem em vídeo no nosso canal:

👉 YouTube: “Passamos raiva com o Rádio J-108”

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